"O que é que fazes numa manhã muito fresca, assim, tão fresquinha, quase sem sol? Tens de aproveitar!!! Vamos embora! Pés ao caminho, que o Jardim Zoológico não é longe, e vai-se quase sempre pela sombra."
Não ia ao Zoo de Lisboa desde a minha infância, tão lá para trás que já nem me lembro que idade tinha.
Fora do fim-de-semana, em abril, o parque estava um descanso. De certeza que éramos muito menos pessoas a passear do que animais em cativeiro.
Há crias muito jovens, nascidas no nosso Jaleco: tigres brancos, 1 hipopótamo, gorilas, 1 orangotango, entre outros. São uma ternura, e o seu nascimento parece provar que vivem em boas condições, ou os seus progenitores não se teriam reproduzido.
No entanto, tenho uma relação complicada com os parques zoológicos. Duvido sempre de que o argumento da preservação das espécies não seja apenas um pretexto mal-amanhado para justificar o cativeiro dos bichos, e por isso não consegui evitar um sentimento parecido com culpa por eu ser uma visitante em liberdade no meio de todos aqueles residentes forçados.
Fiquei tempos infinitos na Aldeia dos Macacos.
A um canto do espaço-montra em que vive, um orangotango adulto andava ocupado a cuidar da sua casa-cama, amparada por trás pelas inamomíveis paredes de betão e debilmente delimitada na frente por um muro de serradura grossa.
O animal ia resoluto até ao extremo oposto da jaula e, usando o braço como uma pá, recolhia as aparas espalhadas pelo chão e arrastava-as até ao seu canto, para aí construir com elas o muro de 20 ou 30 cm de altura.
Quando os seus insondáveis critérios de exigência davam a obra como pronta, ele saltava para o lado de dentro, dava-lhe uns últimos retoques, e instalava-se.
Uma vez deitado, esticava com preguiça pernas e braços, saboreando o conforto com gestos largos e desajeitados que, inadvertidamente, danificavam a frágil parede de serradura. E o descanso era sol de pouca dura!
Como se se apercebesse da precariedade da construção, sentava-se, esticava o braço para fora e ajeitava meticulosamente as aparas, para aperfeiçoar a consistência da casa. De um lado e de outro, reforçava o paredão, voltava a deitar-se, e de novo se erguia, umas vezes para recomeçar a recolher mais aparas a partir do canto oposto, outras vezes só para, com uma mão de cada lado do muro, compactar a serradura. Do seu corpo, por todo o lado, pendiam aparas. Todo ele eram aparas, corpo e cama. Um orangotango só, e as aparas.
Ao fim de algum tempo, e de muito deitar e levantar, a cama deve ter ficado em condições, porque o bicho sossegou.
Observei aquela paz durante mais uns instantes, e afastei-me em desassossego.
Entre outras imagens, vi no orangotango a criança que na praia constrói piscinas de paredes de areia. Pior do que isso...
A nossa vida será muito diferente da daquele orangotango?
Onde nunca nada é definitivo, vamo-nos cansando a construir agora aquilo que não conseguiremos preservar ou que outros hão-de destruir, e é sempre preciso recomeçar, mesmo que as maiores ameaças ao nosso descanso venham de dentro de nós próprios.
Quando o mundo é uma prisão, o descanso é breve.
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