O noticiário da SIC quis hoje aprofundar, com seriedade e rigor, a informação sobre a crise em Espanha e os seus meandros:
Foram ao mercado de Madrid entrevistar uma peixeira.
Assobio Rebelde
O que nos alegra e o que enfurece,o que nos arrepia e o que enternece - tudo aqui pode aparecer. Como for a vida.
17 Novembro 2011
27 Agosto 2011
Educar para a Crise
Ensina-se-lhes que sejam valentes, para um dia virem a ser julgados por covardes!
Ensina-se-lhes que sejam justos, para viverem num Mundo em que reina a injustiça!
Ensina-se-lhes que sejam leais, para que a lealdade, um dia, os leve à forca!
(...)
Não seria mais humano, mais honesto, ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do mundo?
(...)
Quem é mais feliz: o que luta por uma vida digna e acaba na forca, ou o que vive em paz com a sua inconsciência e acaba respeitado por todos?
(...)
Se o meu filho fosse vivo, havia de fazer dele um homem de bem, desses que vão ao teatro e a tudo assistem, com sorrisos alarves, fingindo nada terem a ver com o que se passa em cena!(...)
Havia de lhe ensinar a mentir, a cuidar mais do fato que da consciência e da bolsa do que da alma.
(...)
Se o meu filho fosse vivo... Havia de morrer de velhice e de gordura, com a consciência tranquila e o peito a abarrotar de medalhas!
in Felizmente Há Luar, de Luís de Sttau Monteiro.
(Foram apenas suprimidas as indicações cénicas.)
Ensina-se-lhes que sejam justos, para viverem num Mundo em que reina a injustiça!
Ensina-se-lhes que sejam leais, para que a lealdade, um dia, os leve à forca!
(...)
Não seria mais humano, mais honesto, ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do mundo?
(...)
Quem é mais feliz: o que luta por uma vida digna e acaba na forca, ou o que vive em paz com a sua inconsciência e acaba respeitado por todos?
(...)
Se o meu filho fosse vivo, havia de fazer dele um homem de bem, desses que vão ao teatro e a tudo assistem, com sorrisos alarves, fingindo nada terem a ver com o que se passa em cena!(...)
Havia de lhe ensinar a mentir, a cuidar mais do fato que da consciência e da bolsa do que da alma.
(...)
Se o meu filho fosse vivo... Havia de morrer de velhice e de gordura, com a consciência tranquila e o peito a abarrotar de medalhas!
in Felizmente Há Luar, de Luís de Sttau Monteiro.
(Foram apenas suprimidas as indicações cénicas.)
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Literatura
01 Agosto 2011
Coisas Tortas III - A Lei da Selva nas Parafarmácias Wells do grupo Sonae
Uma bisnaga de um conhecido e publicitado creme hidratante que custa 6, 49 Euros no Continente da Amadora é vendida no mesmo dia - apenas duas horas depois - a 7, 55 no Modelo de Grândola.
Acho incompreensível e inadmissível que haja mais de um euro de diferença (ultrapassa os 15%) num produto deste preço, em lojas do mesmo grupo.
Explicou-me a funcionária de Grândola que "eles" é que decidem os preços, e que há diferenças de loja para loja, mesmo em relação a outros produtos.
Fiquei sem saber quem são "eles", mas percebi que devem ser uns tipos com jeito para o negócio.
Na periferia de Lisboa, onde a concorrência é certamente renhida, desce a margem de lucro para garantir as vendas.
No litoral alentejano, já se sabe que a pluralidade da oferta é fraca, praticamente inexistente, o que torna o lucro mais fácil, e, portanto, é fartar, vilanagem!
Anda o alentejano a pagar caro para o alfacinha comprar barato e a Sonae ganhar o mesmo, ou seja, sempre mais.
É bonito, não é?
Acho incompreensível e inadmissível que haja mais de um euro de diferença (ultrapassa os 15%) num produto deste preço, em lojas do mesmo grupo.
Explicou-me a funcionária de Grândola que "eles" é que decidem os preços, e que há diferenças de loja para loja, mesmo em relação a outros produtos.
Fiquei sem saber quem são "eles", mas percebi que devem ser uns tipos com jeito para o negócio.
Na periferia de Lisboa, onde a concorrência é certamente renhida, desce a margem de lucro para garantir as vendas.
No litoral alentejano, já se sabe que a pluralidade da oferta é fraca, praticamente inexistente, o que torna o lucro mais fácil, e, portanto, é fartar, vilanagem!
Anda o alentejano a pagar caro para o alfacinha comprar barato e a Sonae ganhar o mesmo, ou seja, sempre mais.
É bonito, não é?
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Economia
31 Julho 2011
Coisas Tortas II - "El Corte Chinês" - O Monopólio da China em Portugal
Há uns anos, aqui na vila, ainda em tempo de escudos, as chamadas lojas dos 150 e dos 300 mataram o comércio tradicional.
Mas o sucesso foi sol de pouca dura.
Chegou entretanto um "El Corte Chinês", instalou-se numa loja falida, rebentou com as lojas dos 300, alargou as suas instalações, e é hoje uma superfície considerável de quinquilharia e pronto-a-vestir e ferramentas e tudo e tudo, tudo balato, muito balato.
A última vítima deste retumbante sucesso asiático fechou há uns meses, e era a maior das lojas dos 300, situada na rua principal, quase quase em frente à megastore do balão vermelho.
A defunta loja ocupava um grande espaço comercial do centro urbano. Agora, está fechada.
O mais previsível é vir a ser outra loja de chineses, não é?
Porquê? Porque, com certeza, com a crise não há português que arrisque abrir um negócio numa terra destas, não é?
Pois... Mas o problema não é esse...
A loja está fechada e continuará fechada, de certeza absoluta, mas podia estar aberta, porque está alugada ao chinês da outra loja, que se apressou a tomar conta do espaço, antes que outro chinês se viesse apoderar dele, e fazer-lhe concorrência, a ele, GrandeTimoneiro Livre de Impostos e único usufrutuário local do extraordinário e vantajoso acordo que a União Europeia estabeleceu com a China e que tanto tem contribuído para o desenvolvimento do comércio nacional...
Assim, o nosso perspicaz negociante mantém fechado um dos maiores espaços comerciais da vila, que lhe serve "apenas" de arrecadação e armazém, já que abri-lo ao público implicaria despesas e contratação de pessoal, e ele não está para isso, não precisa disso, porque lhe basta a loja que tem para expor tudo o que tem para vender sem mais despesas.
Estas coisas fazem-me confusão, e deixam-me a assobiar à roupa toda.
Mas, pelos vistos, só a mim é que fazem brotoeja.
O senhorio está feliz porque, na estrita medida do seu interesse pessoalíssimo e particular, tem quem lhe pague a renda, que é a única coisa que lhe interessa.
O chinês está feliz e contente na sua condição de monopolista chico-esperto só de um olho em terra de cegos.
E o português?
O português... o português... para ele, é um pagode ir ao chinês!
Mas o sucesso foi sol de pouca dura.
Chegou entretanto um "El Corte Chinês", instalou-se numa loja falida, rebentou com as lojas dos 300, alargou as suas instalações, e é hoje uma superfície considerável de quinquilharia e pronto-a-vestir e ferramentas e tudo e tudo, tudo balato, muito balato.
A última vítima deste retumbante sucesso asiático fechou há uns meses, e era a maior das lojas dos 300, situada na rua principal, quase quase em frente à megastore do balão vermelho.
A defunta loja ocupava um grande espaço comercial do centro urbano. Agora, está fechada.
O mais previsível é vir a ser outra loja de chineses, não é?
Porquê? Porque, com certeza, com a crise não há português que arrisque abrir um negócio numa terra destas, não é?
Pois... Mas o problema não é esse...
A loja está fechada e continuará fechada, de certeza absoluta, mas podia estar aberta, porque está alugada ao chinês da outra loja, que se apressou a tomar conta do espaço, antes que outro chinês se viesse apoderar dele, e fazer-lhe concorrência, a ele, GrandeTimoneiro Livre de Impostos e único usufrutuário local do extraordinário e vantajoso acordo que a União Europeia estabeleceu com a China e que tanto tem contribuído para o desenvolvimento do comércio nacional...
Assim, o nosso perspicaz negociante mantém fechado um dos maiores espaços comerciais da vila, que lhe serve "apenas" de arrecadação e armazém, já que abri-lo ao público implicaria despesas e contratação de pessoal, e ele não está para isso, não precisa disso, porque lhe basta a loja que tem para expor tudo o que tem para vender sem mais despesas.
Estas coisas fazem-me confusão, e deixam-me a assobiar à roupa toda.
Mas, pelos vistos, só a mim é que fazem brotoeja.
O senhorio está feliz porque, na estrita medida do seu interesse pessoalíssimo e particular, tem quem lhe pague a renda, que é a única coisa que lhe interessa.
O chinês está feliz e contente na sua condição de monopolista chico-esperto só de um olho em terra de cegos.
E o português?
O português... o português... para ele, é um pagode ir ao chinês!
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Economia
30 Julho 2011
Coisas Tortas I - TMN - Banda Estreita
Tenho uma placa de Internet que supostamente é de banda larga, mas que se revela minimalisticamente de banda estreita onde mais frequentemente preciso dela. É tão apertadinha, que tudo custa a passar e demora tréculos a chegar ao meu computador!
Fico alapada em frente ao écran, a ver vídeos aos solavancos, e a esperar eternidades pelo carregamento de uma imagem ou de um mail um bocadinho mais rechonchudo.
Eu sei que a vida é um teste permanente à paciência do indígena mas, caramba, até a placa de Internet!?
Ao que parece, trata-se de um problema de cobertura... e não devo queixar-me- a placa é TMN, e a TMN é a rede que melhor funciona nesta zona. Diz quem já experimentou outras que as da concorrência ainda são piores...
Acontece que eu não estou num deserto, do género Pulo do Lobo ou Nenhures de Baixo. Assentei arraiais em pleno centro de uma vila do litoral alentejano, onde, por sinal, se avista de vários lados uma magnífica antena que me disseram ser da... TMN!
Dizem-me que em Lisboa a coisa anda depressinha... Pois... Já experimentei, repetidamente, durante várias semanas, e é mais rápida, sim senhora, desde que não seja a hora de ponta... nem à hora do almoço... nem à noite... pois... aí... há muita gente a navegar... É o tráfego...
Ora, bolas!
E aquela geringonça não é para aguentar-se ao barulho, mesmo com muita gente a navegar? E a cobertura não é nacional? E não pagamos para ter velocidade até não sei quantos Giga?
Na minha placa, só se forem Gigalesmas!!!
Não, isto não é um elogio à TMN, por ser a menos má!!!
É um assobio enfadado a todas as operadoras que nos comem o dinheiro e se estão marimbando para a qualidade do serviço que nos prestam.
Fico alapada em frente ao écran, a ver vídeos aos solavancos, e a esperar eternidades pelo carregamento de uma imagem ou de um mail um bocadinho mais rechonchudo.
Eu sei que a vida é um teste permanente à paciência do indígena mas, caramba, até a placa de Internet!?
Ao que parece, trata-se de um problema de cobertura... e não devo queixar-me- a placa é TMN, e a TMN é a rede que melhor funciona nesta zona. Diz quem já experimentou outras que as da concorrência ainda são piores...
Acontece que eu não estou num deserto, do género Pulo do Lobo ou Nenhures de Baixo. Assentei arraiais em pleno centro de uma vila do litoral alentejano, onde, por sinal, se avista de vários lados uma magnífica antena que me disseram ser da... TMN!
Dizem-me que em Lisboa a coisa anda depressinha... Pois... Já experimentei, repetidamente, durante várias semanas, e é mais rápida, sim senhora, desde que não seja a hora de ponta... nem à hora do almoço... nem à noite... pois... aí... há muita gente a navegar... É o tráfego...
Ora, bolas!
E aquela geringonça não é para aguentar-se ao barulho, mesmo com muita gente a navegar? E a cobertura não é nacional? E não pagamos para ter velocidade até não sei quantos Giga?
Na minha placa, só se forem Gigalesmas!!!
Não, isto não é um elogio à TMN, por ser a menos má!!!
É um assobio enfadado a todas as operadoras que nos comem o dinheiro e se estão marimbando para a qualidade do serviço que nos prestam.
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Quotidiano
24 Julho 2011
Absurdo Tolo
Desci as escadas até ao topo e apaguei a luz, para não tropeçar nos móveis do corredor vazio.
No quarto ao fundo, o avô entrevado ouvia rádio, embevecido com o final cor de fogo de E Tudo o Vento Levou.
Sentei-me à sua frente, peguei no jornal e comecei a ler baixinho as legendas, porque o velhote era surdo e precisava sempre que alguém o ajudasse a juntar as sílabas.
Mal eu tinha começado, o avô deu um salto:
- Grande novidade!... Porcaria de filme!... Tanta fama, tanta fama... E um gajo aqui a perder tempo...!
Lançou-me um olhar traquinas, e desafiou, falando-me quase ao nariz:
- Vai um joguinho de dominó? Ah...? Ou de cartas? Aposto que te perco!
- Sempre quero ver isso... – acedi eu, só para o contrariar.
Enquanto ele foi num instante buscar o piano de cauda à sala, eu fui baralhando as partituras, para ele distribuir jogo assim que voltasse.
Sentámo-nos os três a ensaiar uns arpejos. O avô tocava um doble-quinas e eu acompanhava, soprando de vez em quando pela palheta do baralho, a fazer vibrar o ás de copas.
Quando eu engoli a palheta e caí com sentidos, o avô levantou-se num ápice e exclamou, eufórico:
- Tás a ver!? Eu bem disse que te perdia!
No quarto ao fundo, o avô entrevado ouvia rádio, embevecido com o final cor de fogo de E Tudo o Vento Levou.
Sentei-me à sua frente, peguei no jornal e comecei a ler baixinho as legendas, porque o velhote era surdo e precisava sempre que alguém o ajudasse a juntar as sílabas.
Mal eu tinha começado, o avô deu um salto:
- Grande novidade!... Porcaria de filme!... Tanta fama, tanta fama... E um gajo aqui a perder tempo...!
Lançou-me um olhar traquinas, e desafiou, falando-me quase ao nariz:
- Vai um joguinho de dominó? Ah...? Ou de cartas? Aposto que te perco!
- Sempre quero ver isso... – acedi eu, só para o contrariar.
Enquanto ele foi num instante buscar o piano de cauda à sala, eu fui baralhando as partituras, para ele distribuir jogo assim que voltasse.
Sentámo-nos os três a ensaiar uns arpejos. O avô tocava um doble-quinas e eu acompanhava, soprando de vez em quando pela palheta do baralho, a fazer vibrar o ás de copas.
Quando eu engoli a palheta e caí com sentidos, o avô levantou-se num ápice e exclamou, eufórico:
- Tás a ver!? Eu bem disse que te perdia!
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Ficções
19 Julho 2011
Fim de Ciclo
Esta noite depositei no cemitério de mim os últimos dois anos de vida.
Sem lágrimas.
Quando demoramos demasiado tempo a enterrar os mortos, o cansaço de sofrer deixa exausta a própria dor.
Fica um pó de tristeza resignada. Não há vida, por mais viva e vivida, que resista à morte.
Lembrar-me-ei de mim, dos dias, das noites e dos anos?
Não preciso de me lembrar de mim.
Derramo sobre o tempo amassado a terra seca.
Basta que o pó ajude a conservar-me.
E que, mais tarde, a minha força me desperte e sacuda.
Então, agitarei os panos brancos e desenharei claves de sol na minha tristeza.
Sem lágrimas.
Quando demoramos demasiado tempo a enterrar os mortos, o cansaço de sofrer deixa exausta a própria dor.
Fica um pó de tristeza resignada. Não há vida, por mais viva e vivida, que resista à morte.
Lembrar-me-ei de mim, dos dias, das noites e dos anos?
Não preciso de me lembrar de mim.
Derramo sobre o tempo amassado a terra seca.
Basta que o pó ajude a conservar-me.
E que, mais tarde, a minha força me desperte e sacuda.
Então, agitarei os panos brancos e desenharei claves de sol na minha tristeza.
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17 Julho 2011
Aldeia dos Macacos
"O que é que fazes numa manhã muito fresca, assim, tão fresquinha, quase sem sol? Tens de aproveitar!!! Vamos embora! Pés ao caminho, que o Jardim Zoológico não é longe, e vai-se quase sempre pela sombra."
Não ia ao Zoo de Lisboa desde a minha infância, tão lá para trás que já nem me lembro que idade tinha.
Fora do fim-de-semana, em abril, o parque estava um descanso. De certeza que éramos muito menos pessoas a passear do que animais em cativeiro.
Há crias muito jovens, nascidas no nosso Jaleco: tigres brancos, 1 hipopótamo, gorilas, 1 orangotango, entre outros. São uma ternura, e o seu nascimento parece provar que vivem em boas condições, ou os seus progenitores não se teriam reproduzido.
No entanto, tenho uma relação complicada com os parques zoológicos. Duvido sempre de que o argumento da preservação das espécies não seja apenas um pretexto mal-amanhado para justificar o cativeiro dos bichos, e por isso não consegui evitar um sentimento parecido com culpa por eu ser uma visitante em liberdade no meio de todos aqueles residentes forçados.
Fiquei tempos infinitos na Aldeia dos Macacos.
A um canto do espaço-montra em que vive, um orangotango adulto andava ocupado a cuidar da sua casa-cama, amparada por trás pelas inamomíveis paredes de betão e debilmente delimitada na frente por um muro de serradura grossa.
O animal ia resoluto até ao extremo oposto da jaula e, usando o braço como uma pá, recolhia as aparas espalhadas pelo chão e arrastava-as até ao seu canto, para aí construir com elas o muro de 20 ou 30 cm de altura.
Quando os seus insondáveis critérios de exigência davam a obra como pronta, ele saltava para o lado de dentro, dava-lhe uns últimos retoques, e instalava-se.
Uma vez deitado, esticava com preguiça pernas e braços, saboreando o conforto com gestos largos e desajeitados que, inadvertidamente, danificavam a frágil parede de serradura. E o descanso era sol de pouca dura!
Como se se apercebesse da precariedade da construção, sentava-se, esticava o braço para fora e ajeitava meticulosamente as aparas, para aperfeiçoar a consistência da casa. De um lado e de outro, reforçava o paredão, voltava a deitar-se, e de novo se erguia, umas vezes para recomeçar a recolher mais aparas a partir do canto oposto, outras vezes só para, com uma mão de cada lado do muro, compactar a serradura. Do seu corpo, por todo o lado, pendiam aparas. Todo ele eram aparas, corpo e cama. Um orangotango só, e as aparas.
Ao fim de algum tempo, e de muito deitar e levantar, a cama deve ter ficado em condições, porque o bicho sossegou.
Observei aquela paz durante mais uns instantes, e afastei-me em desassossego.
Entre outras imagens, vi no orangotango a criança que na praia constrói piscinas de paredes de areia. Pior do que isso...
A nossa vida será muito diferente da daquele orangotango?
Onde nunca nada é definitivo, vamo-nos cansando a construir agora aquilo que não conseguiremos preservar ou que outros hão-de destruir, e é sempre preciso recomeçar, mesmo que as maiores ameaças ao nosso descanso venham de dentro de nós próprios.
Quando o mundo é uma prisão, o descanso é breve.
Não ia ao Zoo de Lisboa desde a minha infância, tão lá para trás que já nem me lembro que idade tinha.
Fora do fim-de-semana, em abril, o parque estava um descanso. De certeza que éramos muito menos pessoas a passear do que animais em cativeiro.
Há crias muito jovens, nascidas no nosso Jaleco: tigres brancos, 1 hipopótamo, gorilas, 1 orangotango, entre outros. São uma ternura, e o seu nascimento parece provar que vivem em boas condições, ou os seus progenitores não se teriam reproduzido.
No entanto, tenho uma relação complicada com os parques zoológicos. Duvido sempre de que o argumento da preservação das espécies não seja apenas um pretexto mal-amanhado para justificar o cativeiro dos bichos, e por isso não consegui evitar um sentimento parecido com culpa por eu ser uma visitante em liberdade no meio de todos aqueles residentes forçados.
Fiquei tempos infinitos na Aldeia dos Macacos.
A um canto do espaço-montra em que vive, um orangotango adulto andava ocupado a cuidar da sua casa-cama, amparada por trás pelas inamomíveis paredes de betão e debilmente delimitada na frente por um muro de serradura grossa.
O animal ia resoluto até ao extremo oposto da jaula e, usando o braço como uma pá, recolhia as aparas espalhadas pelo chão e arrastava-as até ao seu canto, para aí construir com elas o muro de 20 ou 30 cm de altura.
Quando os seus insondáveis critérios de exigência davam a obra como pronta, ele saltava para o lado de dentro, dava-lhe uns últimos retoques, e instalava-se.
Uma vez deitado, esticava com preguiça pernas e braços, saboreando o conforto com gestos largos e desajeitados que, inadvertidamente, danificavam a frágil parede de serradura. E o descanso era sol de pouca dura!
Como se se apercebesse da precariedade da construção, sentava-se, esticava o braço para fora e ajeitava meticulosamente as aparas, para aperfeiçoar a consistência da casa. De um lado e de outro, reforçava o paredão, voltava a deitar-se, e de novo se erguia, umas vezes para recomeçar a recolher mais aparas a partir do canto oposto, outras vezes só para, com uma mão de cada lado do muro, compactar a serradura. Do seu corpo, por todo o lado, pendiam aparas. Todo ele eram aparas, corpo e cama. Um orangotango só, e as aparas.
Ao fim de algum tempo, e de muito deitar e levantar, a cama deve ter ficado em condições, porque o bicho sossegou.
Observei aquela paz durante mais uns instantes, e afastei-me em desassossego.
Entre outras imagens, vi no orangotango a criança que na praia constrói piscinas de paredes de areia. Pior do que isso...
A nossa vida será muito diferente da daquele orangotango?
Onde nunca nada é definitivo, vamo-nos cansando a construir agora aquilo que não conseguiremos preservar ou que outros hão-de destruir, e é sempre preciso recomeçar, mesmo que as maiores ameaças ao nosso descanso venham de dentro de nós próprios.
Quando o mundo é uma prisão, o descanso é breve.
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06 Julho 2011
A nossa televisão cansa-me!
Se calhar, nos últimos tempos tenho visto um bocado de televisão a mais, porque ando cansada.
Cansa-me o paternalismo de alguns líderes políticos nacionais e europeus, o umbiguismo de outros, as lições dos comentadores que fingem que não são políticos, a partidarite mascarada de comentário isento.
Cansa-me a falta de graça do Herman e o elitismo sectário da graça dos Gato Fedorento, só para Meo.
Cansa-me o exagero nos elogios aos mortos que são sempre muito melhores depois de mortos.
Cansa-me o mau português, a moda dos jornalistas acelerados, que confundem qualidade com falar muito depressa e com muita energia e com muita veemência e...
Cansa-me a pobreza informativa, a falta de notícias nos noticiários, os directos de coisa nenhuma.
Cansa-me o jornalismo que transforma em sondagem nacional tecnicamente irrepreensível as respostas de meia dúzia de gatos pingados anónimos ouvidos à pressa ao virar da esquina, porque, como eles são portugueses, OS portugueses pensam daquela maneira.
Cansa-me tanto, que não escrevo mais nada, embora haja mais coisas que me cansam.
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Media
22 Junho 2011
Gorjetas
Nunca compreendi muito bem porque é que a gorjeta nos restaurantes (e até à mesa dos cafés) se tornou quase obrigatória. Tão obrigatória, que não deixar "qualquer coisa" é muitas vezes mal visto: sinal de ganância, acto envergonhado.
Não percebo este tratamento especial.
Quem se lembraria de dar gorjeta ao empregado da farmácia que com calma e sapiência procura as melhores pastilhinhas depois de nos aturar na descrição dos sintomas da dor de garganta que não levámos ao médico?
Passa pela cabeça de alguém dar qualquer coisa ao vendedor da loja de electrodomésticos que nos atura na indecisão entre a maquineta da marca x e a da marca y, e que nos explica tudinho, tudinho?
E quem paga mais do que o preço marcado ao empregado de balcão que vai ter de ficar a dobrar as sete blusas que nós experimentámos antes de nos decidirmos pela que levamos?
Alguém dá gorjeta à funcionária que num qualquer guichet nos atende com competência, compreensão e disponibilidade?
Alguém dá moedas ao carteiro que diligentemente deposita o correio na nossa caixa?
Quem gratifica o dono do quiosque de jornais que todas as manhãs nos vê ler à borla os títulos de todas as primeiras páginas, e virarmos costas, "informados", muitas vezes sem comprarmos nada?
E quem é que "gorjeteia" o motorista do autocarro que nos traz todos os dias à mesma hora, e que até já esperou por nós um segundinho, no dia em que nos viu a correr, atrasados?
Alguém dá?
Não. Claro que não!
E porquê?
Porque, obviamente, achamos que todas estas pessoas estão apenas a fazer bem o trabalho delas, como é sua obrigação, e para isso e por isso recebem o respectivo ordenado ao fim do mês.
Então, por que carga de água gratificamos o empregado de mesa? Não está ele, como todos os outros, a fazer "apenas" o seu trabalho?
Será porque se trata de comida que nos comportamos de maneira diferente?
Pode ser...
Mas, então, alguém dá gorjeta ao rapazinho do talho que nos pisca o olho quando as costeletas é que são tenrinhas, e não os bifes que tínhamos a intenção de comprar quando entrámos?
E à senhora da padaria que todas as manhãs escolhe da bancada o pãozinho como nós gostamos, mais encruado ou mais tostadinho?
Alguém dá gorjeta à empregada da caixa do supermercado que, com sorte, até nos ajuda a meter as compras no saco?
E ao merceeiro do bairro que nos aconselha a experimentar um produto de qualidade e nos leva à descoberta de uma delícia?
Mais caricato ainda é não darmos gorjeta ao funcionário que nos atende ao balcão e sermos capazes de nos sentirmos na necessidade/obrigação de o fazer se ele - o mesmo! - nos atender à mesa, ou na esplanada, quando o preço aí praticado já é, por tabela, mais alto do que ao balcão.
Ao que julgo saber, na minha ignorância, esta tradição vem do tempo em que os empregados de mesa não tinham ordenado e faziam depender o seu rendimento (ou parte dele) da generosidade dos clientes.
Actualmente, todas estas pessoas recebem um vencimento que até pode ser bastante baixo, mas não o é necessariamente mais do que o de muitos outros cidadãos trabalhadores, e até pode ser mais alto do que o de alguns dos clientes que atendem.
Porque é que havemos, então, de tirar do nosso vencimento para aumentar os deles?
Um amigo dizia-me no outro dia que o faz para ter a certeza de que ninguém lhe cospe na sopa. Mais ou menos como dá a moeda ao arrumador para não ficar com o carro riscado...
Tenho andado a pensar: Já que a crise aconselha a reduzir depesas, e reduzir despesas implica cortar em alguma coisa, que tal começar pelas gorjetas?
E agora, chamem-me nomes...
Não percebo este tratamento especial.
Quem se lembraria de dar gorjeta ao empregado da farmácia que com calma e sapiência procura as melhores pastilhinhas depois de nos aturar na descrição dos sintomas da dor de garganta que não levámos ao médico?
Passa pela cabeça de alguém dar qualquer coisa ao vendedor da loja de electrodomésticos que nos atura na indecisão entre a maquineta da marca x e a da marca y, e que nos explica tudinho, tudinho?
E quem paga mais do que o preço marcado ao empregado de balcão que vai ter de ficar a dobrar as sete blusas que nós experimentámos antes de nos decidirmos pela que levamos?
Alguém dá gorjeta à funcionária que num qualquer guichet nos atende com competência, compreensão e disponibilidade?
Alguém dá moedas ao carteiro que diligentemente deposita o correio na nossa caixa?
Quem gratifica o dono do quiosque de jornais que todas as manhãs nos vê ler à borla os títulos de todas as primeiras páginas, e virarmos costas, "informados", muitas vezes sem comprarmos nada?
E quem é que "gorjeteia" o motorista do autocarro que nos traz todos os dias à mesma hora, e que até já esperou por nós um segundinho, no dia em que nos viu a correr, atrasados?
Alguém dá?
Não. Claro que não!
E porquê?
Porque, obviamente, achamos que todas estas pessoas estão apenas a fazer bem o trabalho delas, como é sua obrigação, e para isso e por isso recebem o respectivo ordenado ao fim do mês.
Então, por que carga de água gratificamos o empregado de mesa? Não está ele, como todos os outros, a fazer "apenas" o seu trabalho?
Será porque se trata de comida que nos comportamos de maneira diferente?
Pode ser...
Mas, então, alguém dá gorjeta ao rapazinho do talho que nos pisca o olho quando as costeletas é que são tenrinhas, e não os bifes que tínhamos a intenção de comprar quando entrámos?
E à senhora da padaria que todas as manhãs escolhe da bancada o pãozinho como nós gostamos, mais encruado ou mais tostadinho?
Alguém dá gorjeta à empregada da caixa do supermercado que, com sorte, até nos ajuda a meter as compras no saco?
E ao merceeiro do bairro que nos aconselha a experimentar um produto de qualidade e nos leva à descoberta de uma delícia?
Mais caricato ainda é não darmos gorjeta ao funcionário que nos atende ao balcão e sermos capazes de nos sentirmos na necessidade/obrigação de o fazer se ele - o mesmo! - nos atender à mesa, ou na esplanada, quando o preço aí praticado já é, por tabela, mais alto do que ao balcão.
Ao que julgo saber, na minha ignorância, esta tradição vem do tempo em que os empregados de mesa não tinham ordenado e faziam depender o seu rendimento (ou parte dele) da generosidade dos clientes.
Actualmente, todas estas pessoas recebem um vencimento que até pode ser bastante baixo, mas não o é necessariamente mais do que o de muitos outros cidadãos trabalhadores, e até pode ser mais alto do que o de alguns dos clientes que atendem.
Porque é que havemos, então, de tirar do nosso vencimento para aumentar os deles?
Um amigo dizia-me no outro dia que o faz para ter a certeza de que ninguém lhe cospe na sopa. Mais ou menos como dá a moeda ao arrumador para não ficar com o carro riscado...
Tenho andado a pensar: Já que a crise aconselha a reduzir depesas, e reduzir despesas implica cortar em alguma coisa, que tal começar pelas gorjetas?
E agora, chamem-me nomes...
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Sociedade
04 Abril 2011
A Inveja é um Sentimento Feio. E o Desânimo?
Do meu local de trabalho tenho vista privilegiada sobre o Tejo, mais ou menos desde a zona do Parque das Nações até ao Cais do Sodré. Sim, é de facto muito bonito. Por estes dias, suponho que devido à chegada da Primavera, tenho também tido uma vista privilegiada para todos os navios de cruzeiro que aportam nesta zona da cidade... e só hoje podemos contar 5! Inevitavelmente, ouvem-se por aqui comentários do género "Espero que não partam sem mim!", "Eh pá, não sei mesmo onde guardei o bilhete!" e outros que se prendem sobretudo com o valor das reformas de alguns dos clientes deste tipo de turismo. Estes últimos são, provavelmente, os menos saudáveis. O problema é que me parece que quem os diz fá-lo mais por desânimo e menos por inveja, apesar de este ser um sentimento feio. Olha, lá está mais um a avisar que vai partir... eu, se tudo correr bem, zarpo daqui a bocado num cacilheiro para a margem sul, com solinho a bater nos vidros e tudo!
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Quotidiano
30 Março 2011
Dúvidas de um QI Baixo
Ando com esta dúvida há tempos: facilidade e facilitismo são coisas diferentes, certo? Por exemplo, quando uma criança é habituada a fazer os TPC sozinha e é pontualmente ajudada por um adulto em caso de necessidade, isso deve ser uma facilidade. Mas se a criança é habituada a ter os TPC feitos por um adulto, isso é facilitismo. Quando usamos a internet para, de forma mais rápida e fácil, obter informação para um trabalho, isso é facilidade, mas quando copiamos a informação e nos apropriamos dela como se fosse o fruto do nosso trabalho chama-se facilitismo. Se juntamos o nosso dinheiro ao longo de meses para podermos pagar um "luxo" que namoramos há tempo, isso é facilitarmo-nos a vida; se, porém, aproveitamos uma abébia de um dinheirito emprestado (às vezes a fundo perdido), isso já é facilitismo. Quando vamos em serviço para fora e aproveitamos para conhecer outra cidade, isso é uma facilidade que o trabalho nos permite, mas quando assinamos a folha de presença e desaparecemos de seguida para o laró, deve ser facilitismo...? (para não lhe chamar outras coisas). Então, é mais ou menos isto ou está a escapar-me alguma coisa?
29 Março 2011
País em Crise III - Pequeno-almoço Fora
Num país em crise, não há tempo para nada, muito menos para tomar o pequeno-almoço em casa. Mesmo quando há tempo, não há paciência.
Saiu dos hábitos de muitos portugueses (e noutros nunca entrou...) fazer a primeira refeição do dia em casa.
A trabalheira de comprar tudo, pôr a mesa, fazer as torradas ou a sandocha, aquecer o leite, descascar a fruta, ... isso era bom para as mulheres de outro tempo, que estavam todo o dia em casa e não tinham dinheiro.
Hoje, uma família moderna tem pressa de sair de casa, e toma o pequeno-almoço fora.
Obviamente, este "luxo" tem um custo: o pequeno-almoço fica pelo dobro do dinheiro, mas não dá trabalho nenhum e portanto é normal que se pague.
Dantes só os ricos tinham poder de compra para se sentarem num café; mas as esplanadas democratizaram-se e hoje qualquer um pode lá sentar-se a alimentar os seus vícios de rico com rendimentos de pobre.
Portugal é certamente o país da União Europeia com mais serviço de pequeno-almoço em cafés e pastelarias, facto que se deve, necessariamente, ao nosso elevado poder económico.
Não vamos com certeza querer comparar um português com um pobretanas dum nórdico, alemão ou francês, essa gente pindérica que toma o pequeno-almoço em casa...
Isto aqui é outra loiça!
Saiu dos hábitos de muitos portugueses (e noutros nunca entrou...) fazer a primeira refeição do dia em casa.
A trabalheira de comprar tudo, pôr a mesa, fazer as torradas ou a sandocha, aquecer o leite, descascar a fruta, ... isso era bom para as mulheres de outro tempo, que estavam todo o dia em casa e não tinham dinheiro.
Hoje, uma família moderna tem pressa de sair de casa, e toma o pequeno-almoço fora.
Obviamente, este "luxo" tem um custo: o pequeno-almoço fica pelo dobro do dinheiro, mas não dá trabalho nenhum e portanto é normal que se pague.
Dantes só os ricos tinham poder de compra para se sentarem num café; mas as esplanadas democratizaram-se e hoje qualquer um pode lá sentar-se a alimentar os seus vícios de rico com rendimentos de pobre.
Portugal é certamente o país da União Europeia com mais serviço de pequeno-almoço em cafés e pastelarias, facto que se deve, necessariamente, ao nosso elevado poder económico.
Não vamos com certeza querer comparar um português com um pobretanas dum nórdico, alemão ou francês, essa gente pindérica que toma o pequeno-almoço em casa...
Isto aqui é outra loiça!
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Sociedade
27 Março 2011
País em Crise II - As Viagens de Finalistas
Num país normal as viagens de finalistas ocorrem no final do ensino secundário e à saída do ensino superior, e são um acontecimento memorável na vida de um estudante, uma forma de assinalar a conclusão de um importante ciclo académico.
Num país em crise, fazem-se viagens de finalistas à saída do 3º ciclo, e do 2º ciclo e até à saída do 1º ciclo.
Num país em crise há até quem faça queima das fitas no ensino básico.
Num país em crise, crianças de 12 ou 13 anos fazem as malas e vão para um "resort".
Num país normal, as viagens de finalistas são aproveitadas para conhecer outras regiões pátrias, e conciliam a vertente lúdica com pelo menos algumas preocupações culturais.
Num país em crise, as viagens de finalistas são sempre para o estrangeiro, porque o que é nacional é piroso, e conciliam a vertente - pelo menos - etílica com talvez algumas preocupações de bronzeado em areal.
Um país em crise ostraciza ou ridiculariza os jovens cujos pais não têm capacidade económica para sustentar estas cavalgadas (ou que têm força suficiente para lhes resistir).
Nesta Páscoa, continuaremos a partilhar a nossa crise com Lloret del Mar e afins?
Num país em crise, fazem-se viagens de finalistas à saída do 3º ciclo, e do 2º ciclo e até à saída do 1º ciclo.
Num país em crise há até quem faça queima das fitas no ensino básico.
Num país em crise, crianças de 12 ou 13 anos fazem as malas e vão para um "resort".
Num país normal, as viagens de finalistas são aproveitadas para conhecer outras regiões pátrias, e conciliam a vertente lúdica com pelo menos algumas preocupações culturais.
Num país em crise, as viagens de finalistas são sempre para o estrangeiro, porque o que é nacional é piroso, e conciliam a vertente - pelo menos - etílica com talvez algumas preocupações de bronzeado em areal.
Um país em crise ostraciza ou ridiculariza os jovens cujos pais não têm capacidade económica para sustentar estas cavalgadas (ou que têm força suficiente para lhes resistir).
Nesta Páscoa, continuaremos a partilhar a nossa crise com Lloret del Mar e afins?
País em Crise I - Aniversários para Crianças
No país em crise, os aniversários das crianças não se comemoram em casa.
Falta espaço para tanta gente, falta tempo para compras, preparativos, cozinhados e limpezas-arrumações pós-festa e falta paciência, porque a vida já é o que é de 2ª a 6ª feira, quanto mais estragá-la ao fim de semana.
No país em crise cultivam-se novas formas de celebração de aniversários.
No país em crise, recorre-se a empresas de eventos ou de restauração, que tratam de tudo, desde a comidinha à animação (música, palhaços, pinturas faciais, figuras de desenhos animados, batalhas de paintball) passando pelos balões e gaitas, mais os presentinhos para todos os convidados, o bolo de aniversário, etc.
No país em crise, o sucesso destes eventos é de tal ordem que já há festas de aniversário às 10 da manhã, por falta de vaga no turno da tarde.
No país em crise proliferaram os negócios neste sector.
Estarão agora em crise?
Falta espaço para tanta gente, falta tempo para compras, preparativos, cozinhados e limpezas-arrumações pós-festa e falta paciência, porque a vida já é o que é de 2ª a 6ª feira, quanto mais estragá-la ao fim de semana.
No país em crise cultivam-se novas formas de celebração de aniversários.
No país em crise, recorre-se a empresas de eventos ou de restauração, que tratam de tudo, desde a comidinha à animação (música, palhaços, pinturas faciais, figuras de desenhos animados, batalhas de paintball) passando pelos balões e gaitas, mais os presentinhos para todos os convidados, o bolo de aniversário, etc.
No país em crise, o sucesso destes eventos é de tal ordem que já há festas de aniversário às 10 da manhã, por falta de vaga no turno da tarde.
No país em crise proliferaram os negócios neste sector.
Estarão agora em crise?
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Sociedade
23 Março 2011
Ode(io) ao Assobio
Caro Assobio,
Com as minhas felicitações pelo teu regresso, constato nos últimos dias que a tua rentrée foi em grande!
Não, não é para fazer aqui o elogio do texto, essa parte não me compete nem é este o local próprio. Simplesmente gostei de ver que afinal ainda há muita gente que não fica indiferente ao que lê e que não se importa de "perder tempo" a fazer comentários em blogues.
A propósito do muito que se tem dito/visto/ouvido sobre a geração à rasca, há duas coisas que me ficaram a martelar na cabeça. Primeiro, uma entrevista a uma jovem de 26 anos, licenciada há dois e desempregada há outros tantos, que disse saber que rapidamente arranjaria emprego numa loja ou num supermercado, mas que não se menosprezava (sic) a esse ponto. Segundo, a ligeireza com que a frase "A Nossa Culpa", e as ideias que lhe associaste na parte final do teu texto, vieram a ser relegadas para segundo plano, numa demonstração de que o nosso medo é tanto que talvez seja melhor deixarmos a cabeça enterrada na areia mais uns tempos.
Já agora, e não querendo fazer disto uma Carta Aberta ao Assobio, gostava que soubesses que vários colegas de trabalho me mostraram hoje um texto sobre a geração à rasca. Todos tinham a mesma versão e para todos o texto era da autoria de Mia Couto. Naquilo que pude, lá fui desfazendo o equívoco, só que quando chegou à parte de quererem autógrafos...! eh pá! desculpa lá, mas não posso meter essa cunha!
Com as minhas felicitações pelo teu regresso, constato nos últimos dias que a tua rentrée foi em grande!
Não, não é para fazer aqui o elogio do texto, essa parte não me compete nem é este o local próprio. Simplesmente gostei de ver que afinal ainda há muita gente que não fica indiferente ao que lê e que não se importa de "perder tempo" a fazer comentários em blogues.
A propósito do muito que se tem dito/visto/ouvido sobre a geração à rasca, há duas coisas que me ficaram a martelar na cabeça. Primeiro, uma entrevista a uma jovem de 26 anos, licenciada há dois e desempregada há outros tantos, que disse saber que rapidamente arranjaria emprego numa loja ou num supermercado, mas que não se menosprezava (sic) a esse ponto. Segundo, a ligeireza com que a frase "A Nossa Culpa", e as ideias que lhe associaste na parte final do teu texto, vieram a ser relegadas para segundo plano, numa demonstração de que o nosso medo é tanto que talvez seja melhor deixarmos a cabeça enterrada na areia mais uns tempos.
Já agora, e não querendo fazer disto uma Carta Aberta ao Assobio, gostava que soubesses que vários colegas de trabalho me mostraram hoje um texto sobre a geração à rasca. Todos tinham a mesma versão e para todos o texto era da autoria de Mia Couto. Naquilo que pude, lá fui desfazendo o equívoco, só que quando chegou à parte de quererem autógrafos...! eh pá! desculpa lá, mas não posso meter essa cunha!
21 Março 2011
Geração à Rasca - Assobio Rebelde, Mia Couto, Plágio e Iliteracia
Este blogue existe há cerca de 5 anos, e não é um blogue anónimo.
Aqui escrevo, devidamente identificada no perfil ("Quem Assobia").
Os que aqui me visitam sabem que este espaço não é anónimo e que aqui são respeitados os direitos de autor. Logo que redigi o texto, a 09 de março (portanto, antes da manifestação), disponibilizei-o na minha página do Facebook.
Não faço ideia por que razão o texto foi atribuído a Mia Couto. Nada fiz por isso. Costumo defender as minhas ideias sem precisar de me esconder atrás de outras pessoas. Quanto à forma como escrevo, ela está patente aos olhos de toda a gente (por exemplo, aqui no "Assobio"), basta querer ler textos anteriores.
O próprio Mia Couto me pede que desfaça o equívoco... Não estamos a ficar um pouco loucos?
Tenho de ser eu a dizer que o meu texto não é de Mia Couto? Ora essa!...
O equívoco com Mia Couto não é o único; já me acusaram de ter usurpado o texto a mais um ou dois autores, naquilo que considero serem deliciosas manifestações de distorção intelectual...
Quando decidi escrever sobre este assunto, limitei-me a expressar o meu ponto de vista, como tenho feito aqui, a propósito de outros temáticas, e como é meu hábito fazer no quotidiano. Evidentemente, não descobri a pólvora nem sou dona da verdade, nem reclamo qualquer talhão no cemitério das ideias absolutamente originais. Com tanta gente a escrever sobre o mesmo...
Uma coisa é certa - o plágio não é compatível com os meus valores. Dito isto, não posso deixar de dizer que me tenho divertido com os insultos de alguns comentadores empenhados em acusarem-me de plágio.
A propósito de comentários: todos (mesmo os anónimos) têm sido publicados, com dois tipos de excepção:
a) os que contêm insultos ou um nível de língua muito abaixo do padrão;
b) os que são mais extensos do que o meu próprio "post": quem tem tanto para dizer pode talvez criar um blogue para fazer ouvir condignamente a sua voz.
Todos os outros comentários são, obviamente, bem vindos, sobretudo quando enriquecem de forma saudável a discussão.
Lamento apenas que alguns comentários revelem tamanha dificuldade de interpretação do que escrevi, e que vejam neste meu post um ataque às novas gerações. Às vezes, o nível de distorção do meu pensamento é tal que me pergunto se não estaremos, de facto, perante formas subtis e requintadas de iliteracia... o que só dá razão ao que escrevi.
Aqui escrevo, devidamente identificada no perfil ("Quem Assobia").
Os que aqui me visitam sabem que este espaço não é anónimo e que aqui são respeitados os direitos de autor. Logo que redigi o texto, a 09 de março (portanto, antes da manifestação), disponibilizei-o na minha página do Facebook.
Não faço ideia por que razão o texto foi atribuído a Mia Couto. Nada fiz por isso. Costumo defender as minhas ideias sem precisar de me esconder atrás de outras pessoas. Quanto à forma como escrevo, ela está patente aos olhos de toda a gente (por exemplo, aqui no "Assobio"), basta querer ler textos anteriores.
O próprio Mia Couto me pede que desfaça o equívoco... Não estamos a ficar um pouco loucos?
Tenho de ser eu a dizer que o meu texto não é de Mia Couto? Ora essa!...
O equívoco com Mia Couto não é o único; já me acusaram de ter usurpado o texto a mais um ou dois autores, naquilo que considero serem deliciosas manifestações de distorção intelectual...
Quando decidi escrever sobre este assunto, limitei-me a expressar o meu ponto de vista, como tenho feito aqui, a propósito de outros temáticas, e como é meu hábito fazer no quotidiano. Evidentemente, não descobri a pólvora nem sou dona da verdade, nem reclamo qualquer talhão no cemitério das ideias absolutamente originais. Com tanta gente a escrever sobre o mesmo...
Uma coisa é certa - o plágio não é compatível com os meus valores. Dito isto, não posso deixar de dizer que me tenho divertido com os insultos de alguns comentadores empenhados em acusarem-me de plágio.
A propósito de comentários: todos (mesmo os anónimos) têm sido publicados, com dois tipos de excepção:
a) os que contêm insultos ou um nível de língua muito abaixo do padrão;
b) os que são mais extensos do que o meu próprio "post": quem tem tanto para dizer pode talvez criar um blogue para fazer ouvir condignamente a sua voz.
Todos os outros comentários são, obviamente, bem vindos, sobretudo quando enriquecem de forma saudável a discussão.
Lamento apenas que alguns comentários revelem tamanha dificuldade de interpretação do que escrevi, e que vejam neste meu post um ataque às novas gerações. Às vezes, o nível de distorção do meu pensamento é tal que me pergunto se não estaremos, de facto, perante formas subtis e requintadas de iliteracia... o que só dá razão ao que escrevi.
09 Março 2011
Geração à Rasca - A Nossa Culpa
Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim.
08 Março 2011
Carnaval à Portuguesa - Bailódromos Molhados
Começa a ser repetitivo.
Chove no Carnaval, e lá vem o espectáculo do costume.
Ou não há mesmo festa, ou a festa acaba à pressa, com toda a gente a fugir da chuva.
Depois, vem a lamúria dos prejuízos causados pela falta de foliões dispostos a pagar entrada nos bailódromos-abanódromos.
Até com o Carnaval somos desfazados da realidade. Quando é que nos convencemos da latitude e longitude de Pportugal?
É verdade que no Carnaval tudo é a fingir, pelo que ninguém pode levar a mal se nós fingirmos que estamos no verão.
Mas alguém já pensou no impacto negativo dos festejos invernais do Carnaval no Serviço Nacional de Saúde?
Quantas constipações, Resfriados e outras avarias? Idas ao médico? Entupimento das urgências? Incapacidades temporárias para o trabalho?
Ah!... Pois é!
Chove no Carnaval, e lá vem o espectáculo do costume.
Ou não há mesmo festa, ou a festa acaba à pressa, com toda a gente a fugir da chuva.
Depois, vem a lamúria dos prejuízos causados pela falta de foliões dispostos a pagar entrada nos bailódromos-abanódromos.
Até com o Carnaval somos desfazados da realidade. Quando é que nos convencemos da latitude e longitude de Pportugal?
É verdade que no Carnaval tudo é a fingir, pelo que ninguém pode levar a mal se nós fingirmos que estamos no verão.
Mas alguém já pensou no impacto negativo dos festejos invernais do Carnaval no Serviço Nacional de Saúde?
Quantas constipações, Resfriados e outras avarias? Idas ao médico? Entupimento das urgências? Incapacidades temporárias para o trabalho?
Ah!... Pois é!
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Sociedade
06 Março 2011
A Impertinência da Professora ou o Direito da Aluna à Indignação
A adolescente, habitualmente de poucas falas e avessa a comentários sobre o seu quotidiano de estudante de 9º ano, chega a casa enervada.
A sua indignação é tal que puxa ela própria a conversa à mãe.
Ofendida, é o que ela vem, com a professora X. Ofendidíssima.
A professora X... "ó mãe, ela teve a lata de interromper uma conversa importante que eu tava a ter com a C., uma coisa que tínhamos mesmo de falar, mãe!..."
Realmente!...
Em plena aula, a professora X interromper a conversa de duas alunas?...
Onde nós chegámos!
A sua indignação é tal que puxa ela própria a conversa à mãe.
Ofendida, é o que ela vem, com a professora X. Ofendidíssima.
A professora X... "ó mãe, ela teve a lata de interromper uma conversa importante que eu tava a ter com a C., uma coisa que tínhamos mesmo de falar, mãe!..."
Realmente!...
Em plena aula, a professora X interromper a conversa de duas alunas?...
Onde nós chegámos!
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Educação
Cócegas na Cabeça dos Dedos
Primeiro a falta de tempo (ai, esse sorvedouro de horas chamado trabalho...), e depois umas fortes fragilidades da saúde têm silenciado o Assobio (e o QI Baixo também não tem teclado).
A tudo o meu silêncio resistiu:
- Orçamento de Penúria de Estado para 2011 e ofícios correlativos;
- Pobreza de eleições presidenciais, com suas confrangedoras campanha eleitoral e participação eleitoral;
- sobressaltos e pesadelos educativos;
- etc., etc., etc.
Ultimamente, porém, andam a acontecer coisas que me têm provocado brotoeja nos neurónios e cócegas na cabeça dos dedos. Ando assim a modos que a ferver, com vontade de teclar umas barbaridades...
A tudo o meu silêncio resistiu:
- Orçamento de Penúria de Estado para 2011 e ofícios correlativos;
- Pobreza de eleições presidenciais, com suas confrangedoras campanha eleitoral e participação eleitoral;
- sobressaltos e pesadelos educativos;
- etc., etc., etc.
Ultimamente, porém, andam a acontecer coisas que me têm provocado brotoeja nos neurónios e cócegas na cabeça dos dedos. Ando assim a modos que a ferver, com vontade de teclar umas barbaridades...
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Interiores
13 Outubro 2010
Diálogos Curtos e Esclarecedores
- Amanhã, antes de abalarmos, temos de ir ao pão, à lavandaria e passear o cão. Qual destas tarefas queres para ti?
- Nenhuma.
- Nenhuma.
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Quotidiano
12 Outubro 2010
Pedir Imensa Desculpa
Ultimamente dei por mim a reparar que as pessoas pedem quase sempre imensa desculpa (isto no caso das pessoas que pedem desculpa).
E é engraçado notar que o fazem nos contextos mais díspares, a propósito de tudo e de nada, mas ainda assim sempre com a mesma convicção. Vejamos: "Peço imensa desculpa, não tinha reparado que a informação já vinha na carta", ao estilo estou-me nas tintas para ter o rabalho de ler, explica-me lá tu ao telefone; "Peço imensa desculpa pelo atraso", género nunca ninguém chega a horas e logo hoje fui eu apanhado; "Peço imensa desculpa, fui só ali ao multibanco", como que a dizer estava eu tão bem com o carrinho em segunda fila e tu lembras-te de querer sair com o teu; "Pisei-o! Peço imensa desculpa!", tipo bem feito, não estivesses de pezinho esticado.
Se for usado como advérbio de quantidade, servirá para quê, aqui? (é que acho que é mesmo nesse sentido que muita gente usa a expressão, assim como quem pede muita desculpa). Pedir desculpa em quantidade, ainda que não em qualidade, provocará no receptor alguma espécie de condescendência maior? e condescender é desculpar? ou é só abrir portas a mais desculpas?
Estou baralhada... pessoalmente, costumo usar a forma verbal, sozinha e sem floreados, mantendo sempre presente o dito que ouvi em tempos: as desculpas não se pedem, evitam-se.
E é engraçado notar que o fazem nos contextos mais díspares, a propósito de tudo e de nada, mas ainda assim sempre com a mesma convicção. Vejamos: "Peço imensa desculpa, não tinha reparado que a informação já vinha na carta", ao estilo estou-me nas tintas para ter o rabalho de ler, explica-me lá tu ao telefone; "Peço imensa desculpa pelo atraso", género nunca ninguém chega a horas e logo hoje fui eu apanhado; "Peço imensa desculpa, fui só ali ao multibanco", como que a dizer estava eu tão bem com o carrinho em segunda fila e tu lembras-te de querer sair com o teu; "Pisei-o! Peço imensa desculpa!", tipo bem feito, não estivesses de pezinho esticado.
Se for usado como advérbio de quantidade, servirá para quê, aqui? (é que acho que é mesmo nesse sentido que muita gente usa a expressão, assim como quem pede muita desculpa). Pedir desculpa em quantidade, ainda que não em qualidade, provocará no receptor alguma espécie de condescendência maior? e condescender é desculpar? ou é só abrir portas a mais desculpas?
Estou baralhada... pessoalmente, costumo usar a forma verbal, sozinha e sem floreados, mantendo sempre presente o dito que ouvi em tempos: as desculpas não se pedem, evitam-se.
A Magnólia Vive
Há um blog onde uma magnólia bonita vive e partilha o espaço com textos igualmente bonitos.
http://magnoliaviva.blogspot.com
Ora espreitem lá!
http://magnoliaviva.blogspot.com
Ora espreitem lá!
05 Outubro 2010
"Vivá República"... "Vivá"??? Francamente!...
Nas comemorações dos 100 anos da República, a RTP, a TV do Estado, que todos pagamos, tem andado a promover o evento com uma emissão em directo de título deseducativo intitulada "Vivá República".
Já nem sequer teço considerações sobre a qualidade das emissões. Fico-me apenas pelo título.
Vivá???
Em que língua está isto escrito?
Já nem sequer teço considerações sobre a qualidade das emissões. Fico-me apenas pelo título.
Vivá???
Em que língua está isto escrito?
09 Julho 2010
Teorias da Educação e Outras (ou um final de dia de fúria)
Sete da tarde e ainda 33º em Lisboa. Arrastadamente, entramos para o cacilheiro que em 10 minutos nos põe do outro lado, onde apanharemos um autocarro que nos há-de deixar perto de casa.Aqueles 10 minutos dão para muita coisa, sempre à vontade do freguês: dormir, ler, actualizar a agenda, dormir, fazer a catarse do dia com o colega que nos acompanha, falar ao telemóvel, dormir, apreciar o rio, dormir...
Ontem não deu para nada disto. Uma mãe lutou, durante os 10 minutos da viagem, com a birra de um filho que gritou a plenos pulmões, como se não houvesse amanhã.
Quem tentava ler, suspirou, quem falava ao telemóvel repetiu "não ouço, 'tá aqui um puto a fazer birra", quem tentava dormir teve pesadelos.
E eis que logo ali surgiram as melhores teorias da educação, ao estilo "se fosse no meu tempo, tu ias ver", "está a precisar é de uma palmada", "não é a bater que se resolve a situação, isso era dantes", "fazem-lhe as vontades e depois dá nisto" e (a minha favorita) "deixa-o berrar, que ele logo se cansa"... Quando o barco atracou, tenho cá para mim que todos rezávamos baixinho para que a criança não tivesse como destino o mesmo autocarro que nós.
Quanto a mim, Deus atendeu as minhas preces, mas para me castigar logo de seguida com uma viagem de mais 20 minutos novamente aos berros e sucessivas paragens, fruto de uma discussão entre o motorista e um passageiro que insistia em ofendê-lo porque ele era brasileiro.
Mais uma vez se ouviram comentários e opiniões para todos os gostos. Uma coisa é certa, parece que fado, futebol e Fátima já não chegam para acalmar as hostes, a malta quer é ver sangue!
08 Julho 2010
Árrocsh de Polvo

Que me desculpem os leitores que não gostam de futebol, porque de facto o Assobio tem andado muito virado para o Mundial, mas temo pela vida de Paulo, o polvo.
Paulo é um polvo que vive num aquário na Alemanha e que, desde que o Mundial começou, tem adivinhado sempre o resultado dos jogos em que entra a selecção alemã. Como? simples: dentro do aquário são postas duas caixas com mexilhão dentro e as caixas são forradas com as bandeiras dos dois países em jogo; aquela que o Paulo escolher é a vencedora.
Quando a Alemanha perdeu com a Sérvia, ainda o Mundial era uma criança e o Paulo um polvo engraçado. Agora que foi afastada da final pela Espanha, novamente confirmando um prognóstico de Paulo, receio bem que o arroz de polvo se torne um práto típico por lá!
05 Julho 2010
Cristiano Ronaldo - o Rei, Um Exemplo para o Mundo!
Já não bastava cuspir para a cara dos jornalistas, nem lhe chegava desrespeitar o treinador e os colegas; não era suficiente a sobranceria, o culto da musculatura de Popeye de 3ª, o mau gosto da indumentária e dos adereços, a incapacidade de organizar uma ideia... a viril rasquice da perna aberta e tesa.
Agora, foi PAI, Ele, sozinho, de geração espontânea, Deus e Senhor, Criador da sua Criatura.
Mulher? Mãe? Isso não interessa para nada, que as mulheres são todas umas interesseiras... só servem para orgias e bacanais, umas atrás das outras, pagas todas para dar prazer, a troco de roupas, jóias, brinquedos de luxo, tudo magnanimamente, a uma isto, a outra aquilo, a esta, agora, um filho - é tudo igual, elas vendem-se sempre! Seres inferiores, repugnantes, indignos de viverem ao lado de um modelo de princípios e ética perante o qual o mundo se ajoelha, rendido e embevecido.
Mãe, há só uma! A dele e mais nenhuma! Desinteressada, com certeza, mestre na arte de educar!
Se educar tão bem o nº2 como educou o nº1, está garantida a continuidade da raça.
Podíamos votar ao desprezo esta gentalha, mas não somos capazes.
Era tão fácil deixá-los a nadar no dinheiro e esquecer que eles existem.
Matar a vedeta com a indiferença.
Mulher que é Mulher deveria mudar de passeio à simples ideia de se cruzar com aquilo!
Desprezar o animal.
Tudo isto seria inóquo, se este boçal não fosse, efectivamente, um modelo para as novas gerações, e se os seus comportamentos não fossem "bebidos" por milhares, milhões de jovens em todo o mundo, a esta hora certamente frustrados porque não terão dinheiro para pagar barrigas de aluguer.
Que efeito terá num jovem esta visão pervertida e perversa de que tudo se pode comprar, seja um filho, uma mulher, um Ferrari, uma mansão ou uma peça de roupa?
O que provocará na nossa juventude esta ideia de que um filho não precisa de nascer do amor, nem de uma relação, mas apenas da vontade de um gajo em gerá-lo?
Que consequências terá este exemplo na nossa sociedade, e nesta civilização dita desenvolvida, mas na verdade orgulhosa mãe, amante e filha de Cristiano Ronaldo...
Agora, foi PAI, Ele, sozinho, de geração espontânea, Deus e Senhor, Criador da sua Criatura.
Mulher? Mãe? Isso não interessa para nada, que as mulheres são todas umas interesseiras... só servem para orgias e bacanais, umas atrás das outras, pagas todas para dar prazer, a troco de roupas, jóias, brinquedos de luxo, tudo magnanimamente, a uma isto, a outra aquilo, a esta, agora, um filho - é tudo igual, elas vendem-se sempre! Seres inferiores, repugnantes, indignos de viverem ao lado de um modelo de princípios e ética perante o qual o mundo se ajoelha, rendido e embevecido.
Mãe, há só uma! A dele e mais nenhuma! Desinteressada, com certeza, mestre na arte de educar!
Se educar tão bem o nº2 como educou o nº1, está garantida a continuidade da raça.
Podíamos votar ao desprezo esta gentalha, mas não somos capazes.
Era tão fácil deixá-los a nadar no dinheiro e esquecer que eles existem.
Matar a vedeta com a indiferença.
Mulher que é Mulher deveria mudar de passeio à simples ideia de se cruzar com aquilo!
Desprezar o animal.
Tudo isto seria inóquo, se este boçal não fosse, efectivamente, um modelo para as novas gerações, e se os seus comportamentos não fossem "bebidos" por milhares, milhões de jovens em todo o mundo, a esta hora certamente frustrados porque não terão dinheiro para pagar barrigas de aluguer.
Que efeito terá num jovem esta visão pervertida e perversa de que tudo se pode comprar, seja um filho, uma mulher, um Ferrari, uma mansão ou uma peça de roupa?
O que provocará na nossa juventude esta ideia de que um filho não precisa de nascer do amor, nem de uma relação, mas apenas da vontade de um gajo em gerá-lo?
Que consequências terá este exemplo na nossa sociedade, e nesta civilização dita desenvolvida, mas na verdade orgulhosa mãe, amante e filha de Cristiano Ronaldo...
01 Julho 2010
Vamos para casa, descansar - Take II
Queiroz (afinal é com z...) diz hoje num jornal desportivo:
"Quando eu digo que um jogador está cansado, é porque está cansado. Não brinquem com a minha honra".
Faz lembrar um sketch velhinho do Herman José, em que a mãe dizia "Ó filho, não faças esforços, olha a tua hérnia!", o filho respondia "Ó mãe, mas eu não tenho nenhuma hérnia..." e a mãe encerrava o assunto dizendo "Mas hás de ter, meu filho, hás de ter!"
Fica, assim, explicado preto no branco que o treinador tem sempre razão.
Hugo Almeida que se ponha a pau!
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Desporto
30 Junho 2010
Vamos para casa, descansar
As relações dentro da nossa selecção estão algo tensas. E fora dela também.
Queirós diz que Hugo Almeida estava "esgotado", Hugo Almeida diz que estava fresco que nem uma alface; Cristiano Ronaldo diz para fazerem a pergunta ao Queirós, outro técnico da selecção diz que Ronaldo não pensou no que disse; Eduardo diz que foi um esforço de toda a equipa, Portugal inteiro viu que só meia equipa se esforçou; enquanto o mesmo Eduardo chorava copiosamente no fim do jogo, o seu colega Pepe ria a bandeiras despregadas enquanto cumprimentava um colega espanhol; and so on and so on.
Felizmente, agora têm todos tempo para arrumar as ideias e sobretudo para descansar no recato do lar. É que não tarda, Ronaldo tem de estar a dar o litro na equipa espanhola que lhe paga o ordenado e os brasileiros têm de ir aprender melhor a letra do hino porque o Europeu é já daqui a dois anos.
Graças a Deus que para nós já acabou.
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Desporto
28 Junho 2010
A Pilar, provavelmente do mar
Saramago já não está. Levou consigo todas as palavras, pôs no seu lugar a saudade e deixou-nos a alternativa de relê-las até à exaustão.
Agora pensemos, em exercício que só pode ser de imaginação: se a nós as suas palavras fazem falta, o que não sentirá Pilar del Rio, companheira de duas décadas, cúmplice no tecer dessas palavras, musa inspiradora, amiga, amante, no fundo companheira de uma vida, mesmo antes de Saramago a ter conhecido, porque por vezes assim é no amor ainda que o conheçamos tarde.
A Pilar fazem falta não só as palavras que Saramago também partilhou connosco, mas sobretudo aquelas que só a ela dedicava. Fazem-lhe falta os gestos e as rotinas. Faz-lhe falta a ternura e cumplicidade do olhar, a serenidade da companhia de uma presença que, adivinhando-se poder ser silenciosa, imagina-se plena de intimidade.
Saramago estará, provavelmente, a contemplá-la do mesmo mar que tantas vezes contemplaram juntos. Segui-la-à à distância, guardá-la-à de todos os males e guardará para sempre o seu amor.
Pelo menos Pilar parece estar certa dessa presença - só isso pode justificar a absoluta certeza e infindo desamparo do seu sorriso.
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